A humanidade, dizia-se, iria entrar numa nova e promissora era com o advento da Internet. A promessa não se cumpriu. Em vez da concórdia universal, tivemos um negócio, com características amiúde perversas, que serviu, sobretudo, para mudar não o mundo, mas o topo da lista dos homens mais ricos do mundo, em que pontifica uma meia-dúzia de donos de empresas de Silicon Valley. Sobre os efeitos deletérios desse negócio, que se manifestam sempre mais eficazmente quando se fazem acompanhar de benefícios amplamente reconhecíveis, há já uma significativa bibliografia.
Entre as de leitura imperdível, está O fracasso de Babel. O que fazer depois do fim do sonho da Internet?, do frade franciscano Paolo Benanti, assessor do Vaticano em ética tecnológica. A obra, agora publicada em Portugal pelas Paulinas, é extraordinariamente instrutiva. Na primeira parte, recorda-se “o sonho de Babel”; na segunda, descreve-se “o fracasso de Babel”. Como convém, Paolo Benanti sugere “o que fazer”.
Paolo Benanti não é um crente na capacidade de as grandes empresas tecnológicas se autorregularem, tornando-se, por isso, necessário adoptar regras de procedimento para enquadrar o que fazem. Estas regras são imprescindíveis num mundo em que a pós-verdade, as fake news, as echo chambers, as teorias da conspiração ou o populismo estão a arruinar a democracia. O nosso futuro, escreve Paolo Benanti, dependerá da nossa capacidade de reflectir sobre o que se está a passar e das decisões que tomarmos sobre como construir e defender uma democracia computacional, protegendo-a do poder excessivo das plataformas.
O fracasso de Babel. O que fazer depois do fim do sonho da Internet? permite compreender a relevância do empreendimento que se encontra perante nós.
