O jornal O Vilaverdense está a comemorar os 70 anos de existência. Na Biblioteca Municipal Prof. Machado Vilela, em Vila Verde, pode ser vista até ao final de Abril uma exposição que assinala a efeméride. Manuela Barreto Nunes, coordenadora da biblioteca, recorda os primeiros 20 anos da mais longeva voz noticiosa do concelho.

Manuela Barreto Nunes
Coordenadora da Biblioteca Municipal Prof. Machado Vilela

Um jornal de personalidade vincada

A 19 de março de 1956 é publicado o primeiro número do jornal O Vilaverdense, mitigando uma lacuna noticiosa no concelho de Vila Verde que durava há já oito anos, na sequência do encerramento definitivo da Folha de Vila Verde, um periódico de também longa duração, nascido que fora no longínquo ano de 1885.
Foi seu primeiro director o Padre António Maria Vilela de Sousa (1890-1965), sucedendo-lhe, nem ao fim de um ano, o Cónego Domingos Peixoto da Costa e Silva, arcipreste de Prado, que permanece no cargo até 1968. Nessa data é substituído pelo Padre Severino Pereira Fernandes, que fora anteriormente redactor e administrador e dirige o jornal durante quase duas décadas.
Propriedade da Irmandade de Nossa Senhora do Alívio, com a administração localizada na residência paroquial de Prado e impresso na tipografia Diário do Minho, o jornal assume uma clara inclinação religiosa: no editorial do primeiro número afirma-se como um instrumento de elevação espiritual, contra o materialismo e a perda de valores. Tendo surgido em pleno Estado Novo, o Vilaverdense enquadra-se na ideologia dominante, afirmando uma identidade simultaneamente local, religiosa, moralizadora e comunitária.
Nesse primeiro editorial, em que se apresenta como um quinzenário católico e regionalista, dedicado à defesa e promoção dos interesses do concelho de Vila Verde e se assume como órgão de cultura e difusão de “sãos princípios”, traça como objectivos o serviço moral e material do município, a preservação e valorização das tradições locais, especialmente as religiosas, a promoção da união e da coesão concelhias e, naturalmente, a divulgação de informação sobre a vida e os problemas locais, distinguindo-se assim, pela clara especificidade local, da imprensa de circulação nacional.
O formato e o aspecto gráfico são austeros, com predominância de texto contínuo, escassez de elementos visuais e layout típico da imprensa regional dos anos 50, marcado pela simplicidade tipográfica e pela ausência de recursos iconográficos diversificados. A cor, inicialmente o verde, mas durante a primeira década alternando com o vermelho ou o bordeaux, aparece sobretudo na primeira página, no título do jornal e nas manchetes, nas bordaduras e nalgumas imagens. Ao longo dos primeiros 20 anos de existência, o jornal fará várias experiências gráficas e de cor, numa aparente busca de modernização e de tornar mais chamativa a primeira página. Esta austeridade gráfica, tal como a condensação de notícias numa organização em cinco colunas, aproveitando todo o espaço disponível, reflectem as dificuldades financeiras com que então se debatia, e debate ainda hoje, a imprensa local.
No cabeçalho, até ao 25 de Abril de 1974, figurou sempre a indicação “Visado pela Censura”, uma exigência do regime ditatorial, que obrigava os órgãos de comunicação social a enviar para a comissão de censura as provas tipográficas de cada número publicado. O primeiro número sem essa indicação foi o de 5 de Maio desse ano, que noticiava “uma revolução ordeira e pacífica” e cuja primeira página aqui reproduzimos.

As notícias, as histórias, os combates

O corpus inaugural permite identificar quatro grandes blocos informativos que permanecem ao longo dos primeiros 20 anos:
Em primeiro lugar, os conteúdos religiosos e a identidade católica, dominantes em todas as edições, incluindo a descrição de procissões, romarias e peregrinações, ciclos litúrgicos, visitas pascais, retiros, catequese e textos doutrinais extensos sobre a moral cristã.
Segue-se o noticiário local e administrativo, que valoriza o desenvolvimento comunitário e infraestrutural, as tradições e a cultura local. Nesta temática incluem-se deliberações da Câmara Municipal, obras de infraestruturas (estradas, pontes, eletrificação, escolas), a agricultura e a dinâmica do Grémio da Lavoura e a atividade da Misericórdia e dos Bombeiros Voluntários de Vila Verde, com amplo noticiário sobre as freguesias, denotando empenho na descrição de práticas comunitárias e na preservação da memória local.
Também os temas de sociedade têm grande destaque, com notícias regulares sobre baptizados, casamentos, aniversários, conclusão de cursos superiores, falecimentos, doenças, visitas e regresso de emigrantes, funcionando como dispositivos de visibilidade e reconhecimento social. A poesia, as cartas dos leitores e o humor também aparecem em muitos números do jornal, e o desporto, de início pouco noticiado, torna-se uma rubrica fixa na década de 1970.
Destaque ainda para as notícias sobre o contexto nacional e internacional, quase sempre alinhadas com a narrativa política e moral do regime, incluindo elogios a figuras do Estado, informações muito filtradas sobre o ultramar e críticas ao comunismo e à “imoralidade moderna”, temáticas patentes especialmente em artigos opinativos sobre costumes, cinema, comportamentos sociais e educação religiosa.
Acrescentem-se os combates do jornal, como a Misericórdia de Vila Verde e a construção do seu hospital, um grande desígnio que o Vilaverdense sempre defendeu e ao qual dedica algumas capas, manchetes e extensas reportagens.

E quantas histórias para contar!…

Enquanto órgão da imprensa local, e independentemente das orientações ideológicas e religiosas que o foram norteando, o Vilaverdense teve um importante papel de coesão social, nomeadamente pela preocupação em noticiar acontecimentos ocorridos nas freguesias, assim reduzindo distâncias entre povoações, promovendo um sentimento de pertença ao concelho e estimulando a leitura comunitária (frequentemente em cafés e adros de igrejas), a continuidade do contacto com a terra natal para aqueles que emigravam e recebiam o jornal pelo correio e a participação dos leitores na criação de notícias. É assim que encontramos dezenas de colaboradores e correspondentes, desde figuras da elite local a cidadãos anónimos das aldeias e da diáspora, numa teia de comunicação que terá contribuído para a sua longevidade, essa que agora celebramos com o respeito que nos merecem os seus 70 anos.
O Vilaverdense, cujos primeiros 20 anos de existência podem ser livremente consultados na AquaLibri – Biblioteca Digital do Cávado, é uma fonte incontornável para conhecer, compreender e contar a história recente de Vila Verde e das suas gentes, numa miríade de dimensões. Parabéns, pois, e longa vida ao Vilaverdense, aos seus jornalistas e aos seus leitores!

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