
O 11 de Setembro de 2001 deixou-nos um conjunto extraordinário de primeiras páginas de jornais e de capas de revistas que lograram preservar devidamente a memória desse dia trágico e incrível. Um dos trabalhos inesquecíveis, que melhor soube interpretar o acontecimento, foi, com certeza, o que Françoise Mouly realizou para a revista The New Yorker.

Recordando esse dia, Françoise Mouly, editora de arte da revista, conta que, quando se encaminhava, com o marido, o cartoonista Art Spiegelman, para votar nas eleições primárias para escolher os candidatos a presidente da Câmara (o mayor), para substituição de Rudy Giuliani (Michael Bloomberg seria o eleito), viu um avião a voar a baixa altitude e a atingir a Torre Norte, visível no fim da rua em que viviam. Françoise Mouly e Art Spiegelman correram até à escola da filha, que ficava nas imediações das Torres Gémeas. No estabelecimento de ensino, passaram noventa minutos, que Françoise Mouly disse terem sido angustiantes, antes de a menina aparecer. Ao saírem, viram a segunda torre a desintegrar-se, pelo que correram para norte enquanto uma nuvem de poeira branca os envolvia.
Após regressar a casa, Françoise Mouly foi informada da necessidade de fazer uma nova capa para a edição da New Yorker que estava em preparação. Quando contou a outra mãe o que precisava de fazer, escutou: “Uma capa? É ridículo. Vou dizer-te o que fazer: nada de capa!”. Françoise Mouly achou que a interlocutora tinha razão: “Nenhuma das imagens propostas – incluindo a do Art – parecia adequada à enormidade do que havia acontecido. Pensei em uma capa preta; Art sugeriu a silhueta das torres, preta sobre preto”.
Françoise Mouly lembra o que se passou a seguir: “Ao fazer o desenho, posicionei a antena da torre norte de modo a integrar-se no logotipo da New Yorker. A ideia surgiu instantaneamente: uma imagem fantasma, sentida, mas invisível, ecoando as pinturas minimalistas a preto de Ad Reinhardt”. Depois, tal como acrescenta a editora de arte, o especialista em pré-impressão dirigiu-se à gráfica da revista para calibrar dois tons de preto quase idênticos e um verniz – “imagens fantasmas visíveis apenas em certos ângulos de luz”.
Foi assim que, conclui Françoise Mouly, “do nada, surgiu uma imagem que transmitia a insuportável perda de vidas, a ausência repentina do nosso horizonte, o rasgão no tecido da realidade”.
Foi há 25 anos.
