Charli D’Amelio, uma jovem dos Estados Unidos da América, tornou-se uma celebridade. A sua notoriedade tem sido objecto da atenção da imprensa, do Diário de Notícias, do diário Le Monde ou da revista The New Yorker, por exemplo. E o que é que a rapariga de 16 anos fez para ficar famosa? Nada, poder-se-ia dizer. Ou, se se preferir, nada de significativo. O que lhe deu fama foi, de facto, o acaso. Por acaso, tornou-se, no penúltimo domingo de Novembro, na primeira pessoa a ter 100 milhões de seguidores no TikTok, uma aplicação muito apreciada por adolescentes.
O Diário de Notícias (“TikToker de 16 anos é a primeira a chegar aos 100 milhões de seguidores”) nota que cantoras popularíssimas, como Selena Gomez ou Ariana Grande, não suscitaram idêntica adesão. Nem a conta do Instagram de Rihanna, nem a do Twitter de Taylor Swift conseguem ultrapassar os 87,5 milhões de seguidores, diz o Le Monde (“Charli D’Amelio, 16 ans, et reine incontestée de TikTok”).
A notícia do jornal português refere um episódio banal que, fazendo com que Charli D’Amelio e a irmã tenham sido acusadas de serem mimadas e caprichosas, terá retardado a chegada aos 100 milhões de seguidores, mas não explica como é que uma rapariga igual a milhões de outras se conseguiu distinguir. O jornal francês é um pouco mais esclarecedor.
No começo, a rapariga ia colocando vídeos exibindo-se a dançar, “um formato amplamente utilizado no TikTok, nos Estados Unidos e em França, que contribuiu fortemente para o sucesso da aplicação – inicialmente conhecida principalmente pela mistura de karaoke e coreografia”. Um certo dia, prossegue o relato, uma das suas publicações foi destacada pela plataforma, que a colocou no topo das recomendações aos utilizadores. “O principal ponto forte do TikTok encontra-se na capacidade de sugerir novos conteúdos, o que permite descobrir vídeos de contas que não se acompanham”. O procedimento tem uma consequência frequente: as contas tornam-se virais. A de Charli D’Amelio não foi excepção e atingiu milhões de visualizações em poucas semanas. “Desde então, o número foi sempre aumentando”, disse a rapariga à NBC News, que o Le Monde cita. O jornal diz também que Charli D’Amelio, nas múltiplas entrevistas que concede, manifesta-se incapaz de compreender esta “propulsão espectacular para a celebridade”.
Podem ser oferecidas várias explicações, mas, sejam quais forem, Charli D’Amelio é apenas a líder dessa espécie de seita que congrega os seguidores de nada.

Em El factor fama (Barcelona: Anagrama, 1998), um livro que olha para um mundo que outorga a celebridade a pessoas incapazes de fazer qualquer coisa com um módico de préstimo, a jornalista Mercedes Odina e o pintor Gabriel Halevi explicam que a fama é fomentada por uma massa de cidadãos reduzidos ao papel de uma imensa audiência ávida de entretenimento, gente cujo horizonte se cirunscreve à actualidade oferecida pelos media.
“A actualidade superou a condição de mero referente temporal para se converter num poderoso sistema totalitário”, consideram os autores, garantindo que “já todos nos convertemos em inconscientes soldados do regime da actualidade, enquanto caminhamos, com a agilidade dos mais habilidosos equilibristas, pela corda bamba do candente”. De facto, “nada parece existir fora da constante presença do instante, porque para sobressair há que estar e gritar: ‘Presente!’ com um grito convencido e feroz; um alarido igualador liberto de tudo aquilo que não possa estar incluído na estrita dimensão do actual”. Mercedes Odina e Gabriel Halevi explicam que “os soldados reconhecidos da actualidade são as personagens célebres, enquanto os soldados desconhecidos são os seres anónimos que os consomem diariamente ao pequeno-almoço”.
Os autores de El factor fama notam que, “se antes a notoriedade era coisa de minorias, alimentadas pelo pensamento vivo dos imortais, hoje a celebridade é já uma coisa de maiorias, alimentadas pelo pensamento morto dos grandes vivos”. Hoje, “a maquinaria da actualidade funciona a um ritmo tão delirante e esmagador que a produção enlouquecida de celebridades segue agora o mesmo padrão de rentabilidade que o resto das cadeias de produção: rápido, muito, tudo pronto. A nova ordem do fast-food impõe-se em todos os âmbitos: comida lixo, televisão lixo, celebridade lixo”.
O certo é que, “desde que qualquer um pode ser famoso, ficou claro que na categoria dos notáveis abunda o cinismo, enquanto que o público, por seu lado, renunciou a qualquer princípio de identidade”. Convertidos em audiência e imersos no totalizador regime da actualidade, os cidadãos ignoram, pois, a mera possibilidade de uma existência interior, não se importando de fazer parte de um todo indiferenciado, dizem ainda Mercedes Odina e Gabriel Halevi, que, a propósito, recordam uma eloquente afirmação do escritor Félix de Azúa: “Já quase nenhuma palavra entorpece o desfile destes soldados sem memória, sem origem, sem destino, eficazmente treinados para suportar o nada”. O nada que não cessa de se afirmar, multiplicando o número de seguidores.

Imagens: extractos de capturas de ecrã do site TikTok

1 Comment

  • Maria Campos

    06/12/2020 - 16:07

    O nada, para alguns é tudo…

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