Os provedores dos leitores (e também dos ouvintes e dos telespectadores) desempenham uma função relevantíssima para a qualificação do jornalismo e para a formação de cidadãos esclarecidos e interventivos. A mais recente intervenção do provedor do leitor do diário espanhol El País ilustra eloquentemente como se pode cumprir adequadamente essa dupla missão.
A propósito de um dos assuntos tratados no texto do dia 15 de Setembro, intitulado “Tendências e/ou jornalismo”, Carlos Yárnoz, o “Defensor del Lector”, formula uma recomendação ao jornal e, simultaneamente, ajuda o leitor a compreender como funcionam os bastidores da fábrica informativa, incluindo o que neles há de menos recomendável.
Tendo recebido diversas queixas dos leitores sobre diversos títulos e temas da secção “Gente”, considerados em desconformidade com a linha editorial do jornal, o provedor do leitor fornece os elementos que tornam possível entender a mecânica desse espaço noticioso.
Algumas dos textos da secção, explica Carlos Yárnoz, são elaborados por recomendação da equipa Search Engine Optimization (SEO) – sistemas para melhorar o posicionamento de um media –, a equipa que procura encontrar as fórmulas para conseguir mais audiência na Internet. Constituída por sete elementos da redacção, rastreia permanentemente motores de busca e redes sociais e detecta os temas que mais interesse estão a despertar, tanto do jornal como de outros media nacionais e estrangeiros. Com esses dados, a equipa recomenda os assuntos sobre os quais de deve escrever e que palavras se devem introduzir inicialmente para que o Google e outros motores de busca encontrem facilmente os textos.
Carlos Yárnoz cita o chefe da equipa SEO, que caracteriza assim o trabalho desenvolvido: “O nosso labor é captar o usuário, detectar tendências, sugerir alterações ou fazer recomendações, mas a decisão final é da redacção”. Tratar-se-ia, assim, simplificando, de ver para onde vão todos e ir a correr para se colocar à frente.
O subdirector e o director adjunto do diário El País, também citados por Carlos Yárnoz, deitam água nessa fervura, digamos assim. “Se a recomendação é interessante, legítima e tem interesse jornalístico, estupendo. Mas não devem aceitar-se as que tenham como único e exclusivo objectivo captar simplesmente leitores”. O Search Engine Optimization “é muito útil, necessário, mas mal utilizado é muito perigoso”.
Para o provedor do leitor, as duas afirmações não diminuem a fervura. É que alguns jornalistas dizem sentir-se pressionados ou tentados a aceitar recomendações discutíveis a pretexto de que podem ser decisivas para conseguir mais leitores para os seus textos e secções. Noutras épocas, a própria cúpula do jornal fomentou práticas arriscadas ao enviar a todos os jornalistas relatórios diários com as noticias mais lidas e com felicitações aos seus autores.
As considerações finais incluem as recomendações incontornáveis: “Em tempos de vacas magras no sector, é já delgadíssima a fronteira entre a legítima busca de mais audiência – dela dependem as tarifas publicitárias – e o respeito pelos princípios dos jornais de qualidade e de referência. Lograr o equilíbrio entre ambos os interesses é cada vez mais difícil, mas também mais necessário do que nunca na era das notícias falsas e das máquinas de manipulação de escala planetária. Sim, também aqui está em jogo o mais sagrado: a credibilidade”.
Para que ela não escasseie, é decisiva a existência de provedores dos leitores.

fotografias: EJM

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