Pede-se ao professor da modernidade – como se de algo inteiramente novo e surpreendente se tratasse – que eduque os jovens para o amanhã e que forme melhores cidadãos. Para tal, surgiu a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Polémicas recentes nos media nacionais vieram provar que esta não é uma questão consensual e que nem todos os pais e encarregados de educação concordam que o desenvolvimento de capacidades de cidadania passe pela escola e pelos seus professores. Não obstante, a criação da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e os vários referenciais publicados na página da Direção-Geral de Educação provam que a educação para a cidadania passa, hoje, obrigatoriamente, pela escola. Ora, e não foi sempre assim, mesmo quando não havia uma disciplina autónoma e esta não integrava o currículo? Quando os professores das mais diversas disciplinas se debruçavam sobre textos literários de grandes autores, não estavam a educar os jovens para a cidadania? Pensemos, por exemplo, nos textos de Vieira ou na prosa queirosiana, nos poemas de Sophia. Tantos outros poderiam ser referidos. E quando os alunos destes mesmos professores liam e debatiam o conteúdo de jornais e/ou documentários em sala de aula, o mesmo não acontecia? É inegável que a escola formou e forma jovens cidadãos ativos.
O texto de Sérgio Silva, aluno do décimo ano do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, prova que a escola de hoje assumiu os seus compromissos, mas sobretudo que muitos dos seus alunos aceitaram os desafios e mostram ser cidadãos ativos, capazes de responder aos desafios do contexto histórico e social que os circunda.

Sandra Raquel Silva
Professora do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga

Sem angústia e sem pressa

Sérgio Silva
Aluno do 10.º ano do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga

“Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.” 

As palavras iniciais são de Miguel Torga e tão apropriadas ao presente. Já estamos em setembro! Com mais ou menos dificuldade, vamos conseguindo ultrapassar as barreiras e os problemas com que nos vamos deparando e, sobretudo, vamo-nos habituando a isso, mudando-nos face a essas dificuldades que exigem que se moldem determinados aspetos em ritmo diário.

E, após um longo período de confinamento, seguido por um desconfinamento com aposta na recuperação económica, social e sanitária do país, entramos agora numa nova fase: chegamos à rentrée, ao regresso de milhares de alunos às escolas e de muitos trabalhadores aos seus locais de trabalho, ou à nova forma de teletrabalho

Nesse sentido, os versos torguianos citados no início convocam-nos para uma reflexão sobre este regressar, mas apresentam-nos, também, uma perspetiva futurista, quase que um mapa para nos guiarmos no “caminho duro do futuro”. A poucos dias de milhares de alunos do ensino público voltarem às aulas, já se sente a ansiedade e a emoção deste (re)começar. É como se fosse a primeira vez… tudo tão novo, tão diferente, tão (in)esperado. A pandemia obrigou a um novo sistema de ensino, com o qual se aprendeu em determinadas situações, mas, efetivamente, nada substitui o ensino presencial, o contacto, a partilha de emoções, tudo. E, no entanto, este regresso é, apesar de tudo, alegre. Eu próprio sinto essa alegria de voltar à escola, um local feliz. Não obstante essa alegria, tudo aquilo que fazemos tem de ser um ato de extremo bom senso, consciência e, igualmente, respeito. Se podemos (porque o podemos, apesar das restrições), vamos recomeçar, com calma e com liberdade. Mas essa liberdade exige que se cumpra ao máximo tudo aquilo que é pedido, desde o distanciamento, ao uso de máscara, passando pelo cumprimento de todas as restantes normas.

Se, antes da pandemia, poucas certezas tínhamos sobre o que podia acontecer, num recomeço em tempos pandémicos, menos certezas temos. Tudo é uma “janela debruçada para a vida”, um caminho de coragem, de cansaço, pautado por uma “dor calada” e uma alegria refeita à luz do dia. Tudo é um “verso em branco e sem medida”, “uma varanda aberta para o mundo”, do qual só persistem ilusões, sonhos e esperança.

Daí que, como Torga, vos diga:

“E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças”

Miguel Torga escreve sobre essas mesmas ilusões, os sonhos, mas lembra-nos que “para a frente é que é caminho”. Não nos devemos deixar levar pelo medo, pela inquietação, mas devemos, sim, continuar firmes e fortes, caminhando, ousadamente, com esperança e lucidez. O regresso é uma prova disso mesmo: a situação não é nada fácil. Todavia, a ousadia e a esperança pelas quais nos guiamos ultrapassam todo o cenário negro que nos atormenta. O regresso é a luz ao fundo do túnel, “um verso em branco à espera de futuro”. Desse futuro, temos a certeza de que vamos continuar a lidar com esta ameaça. Porém, enquanto não alcançarmos aquilo que tanto desejamos, não vamos descansar. É esta a nossa sina.

Hoje é dia de uma convergência total do verbo recomeçar com as palavras esperança, ousadia, resiliência, sonho, ilusão, lucidez e futuro. Com ousadia, vamos continuar, resilientes, a caminhar, cada um ao seu ritmo, num caminho repleto de sonhos e ilusões, pautado pela esperança e pela lucidez. Vamos recomeçar com um destino – o futuro, o nosso novo “normal”. E desse fruto não queremos só metade.


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